segunda-feira, 11 de junho de 2012

Teologia do Corpo - IV - A Unidade Original


No último artigo vimos o conceito de Solidão Original que está intimamente ligado com o conceito que ora vamos analisar: a Unidade Original. O texto que serve como referência é o que se segue: “Então o Senhor Deus fez vir sobre o homem um profundo sono, e ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou o lugar com carne. Depois, da costela tirada do homem, o Senhor Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem” (Gn 2,21-22).
Na análise do Papa João Paulo II o ‘profundo sono’ do homem (Adão) indica um momento que ele volta ao “não-ser” ou ao momento que antecede a criação. Em outras palavras, é como se o homem deixasse de existir por um breve momento ou ainda como se voltasse no tempo, para que o mesmo pudesse ressurgir já com a sua dupla unidade de homem e mulher. Ao acordar o homem exclama: “Desta vez sim, essa é osso dos meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher (em hebraico ‘ishá’) porque do homem (‘ish’) foi tirada” (Gn 2,23). Assim o homem exulta de alegria ao ver diante de si um ser que é semelhante a si. O próprio simbolismo de que Deus ‘tirou uma das costelas’ do homem mostra essa unidade original entre homem e mulher.
A unidade original, através da masculinidade e feminilidade, revela a comunhão de pessoas querida por Deus desde o início. Essa comunhão só poderia se formar a partir da ‘dupla solidão’ do homem e mulher, pois tanto homem como a mulher padecem da mesma solidão original, que como vimos no artigo anterior revela a necessidade da presença de Deus na vida de ambos. Daí entendermos que a unidade original se expressa como uma ultrapassagem dos limites da solidão, pois essa mesma solidão aponta para a comunhão.
O Papa afirma ainda o seguinte: “O homem torna-se imagem de Deus não tanto no momento da solidão quanto no momento da comunhão, (...) como imagem de uma imperscrutável comunhão divina de Pessoas” (TdC 9). Em outras palavras, a comunhão que homem e mulher são chamados a realizar é um reflexo da comunhão plena existente entre as pessoas da Santíssima Trindade. Nesse sentido, é na comunhão com o sexo oposto é que o homem torna-se imagem de Deus, pois Deus em sua essência é pura comunhão.
Segundo o Papa a expressão do Gênesis “os dois serão uma só carne” (2,24) chega ao seu ápice quando se realiza o ato conjugal. Antes de tudo é preciso entendermos que a expressão “uma só carne” implica uma comunhão total de vida entre homem e mulher. Mas quando homem e mulher tornam-se uma só carne através do ato conjugal eles redescobrem o mistério da criação. Eles voltam ao mistério que os permite reconhecerem-se reciprocamente chamarem-se pelo nome como aconteceu no primeiro encontro entre o primeiro homem e a primeira mulher.
Uma aplicação prática do significado da unidade original que envolve homem e mulher dá-se no fato de que a união de ambos no ato sexual é algo de misterioso e sagrado. Daí termos que afastar aquela ideia errônea de que o ato sexual é pecaminoso. Não, o ato sexual em si mesmo não é pecado. O ato sexual é sagrado! E por ser sagrado é que o mesmo deve ser respeitado e vivido como tal, evitando toda e qualquer tipo de banalização. Quando banalizado, o ato sexual torna-se o oposto do plano original de Deus para com o homem, pois ele desfigura o plano divino da comunhão de vida total entre homem e mulher; e tudo o que desfigura o plano original de Deus para com o homem nós chamamos de pecado. O ato sexual só tem sentido amplo e total quando acontece dentro de uma comunhão plena de amor entre homem e mulher. Ser “uma só carne” no ato sexual só tem sentido pleno quando homem e mulher já assumiram previamente o compromisso de viverem numa comunhão de vida e de amor que é para sempre, selada com as bênçãos de Deus. O matrimônio cristão é o lugar próprio dessa comunhão de vida e de amor, e o lugar onde o ato sexual recebe toda a força de sua grandeza e dignidade fazendo jus a sua sacralidade.

Pe. Idamor da Mota Jr. 

Católicos favoráveis à Homofobia?


   Nas últimas semanas temos acompanhado novas discussões sobre leis contra a homofobia – discussão que volta à tona pelo seminário organizado pela Senadora Marta Suplicy sobre o Projeto de Lei da Câmara 122/2006 (mais conhecido como PLC 122) e pelas propostas para o novo Código Penal Brasileiro. Com base nessas discussões, poderíamos perguntar-nos, qual é a posição dos católicos em relação à homofobia?
   É já ideia comum entre os não-católicos – e infelizmente entre muitos católicos também – pensar que nós, católicos, somos homofóbicos. Nada mais equivocado. Atitudes de violência física ou moral, ridicularizações – ou o famoso bullyng, que agora está de moda – são tão contrários à doutrina católica como qualquer outro pecado contra a caridade. Sendo assim – repito para deixar bem claro – não somos e jamais seremoshomofóbicos se queremos seguir a Cristo.
   Ao mesmo tempo somos também contrários aos atuais projetos de lei propostos e já citados. Por sermoshomofóbicos? Não. Mas por diversas outras razões. A primeira delas é por ser um projeto legislativamente desnecessário. Contra a violência – seja física ou moral – e contra a discriminação, já existem leis às quais as pessoas que se sintam injustiçadas podem recorrer. Não é necessário criar uma nova lei, mas sim fazer que as leis já existentes se apliquem de fato. Porque estamos vivendo em uma tendência de multiplicar leis que já existem?
   Em segundo lugar, a lei apresentada é contrária à liberdade de expressão e à liberdade religiosa. É verdade que a liberdade de expressão não é e não pode ser absoluta – por exemplo, ninguém nunca pode incitar à violência recorrendo à liberdade de expressão. Mas também é verdade que, com a nova lei, os limites do que poderá ser interpretado como agressão ou não-agressão – do ponto de vista moral – serão muito frágeis. Se um pastor protestante ou um sacerdote católico lerem ou pregarem sobre a 1ª Carta de São Paulo aos Corintios – Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os ladrões herdarão o reino de Deus – não poderá alguém recorrer à “nova” lei por sentir-se agredido? Se um sacerdote negar a comunhão a um “casal” homossexual, estes não poderiam acusar ao sacerdote de “homofóbico”?
   Queremos apenas a liberdade de poder afirmar aquilo em que acreditamos. De poder dizer claramente, sem nenhuma pretensão de ofender a ninguém, que uma pessoa que vive atos homossexuais está ofendendo a Deus. De poder oferecer ajuda – somente àquelas pessoas que queiram e acreditem que precisam ser ajudadas – a que vivam o amor de Deus em plenitude. Queremos ser livres, sem ofender a ninguém, mas ser de fato livres para pensar.
   Em um artigo escrito há aproximadamente dois anos sobre este mesmo tema, fui acusado em um blog – por pessoas que não me conhecem – de ser pedófilo, pederasta, homossexual, etc. Tudo isso pelo simples fato de ser sacerdote. Como sabemos, a discriminação atual contra a Igreja e contra os sacerdotes não são casos isolados – somos os únicos que não temos mais direito à liberdade. Devemos criar então uma lei de “sacerdociofobia” ou “eclesiofobia”por causa disso? Não. Por que então reivindicam que para os grupos homossexuais é necessária uma lei específica?

**Pe. Hélio é graduado em filosofia e teologia pela Universidade de Navarra, na Espanha, Mestrado em bioética pela mesma Faculdade; Mestrando em Teologia Moral pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz (PUSC), na Itália, doutorando em bioética pela Faculdade de Medicina do Campus Biomedico di Roma (UNICAMPUS), na Itália e Membro da Comissão de Bioética da CNBB. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Teologia do Corpo - Parte3 - A Solidão Original


Vimos no último artigo que o Papa toma como ponto de partida de suas catequeses o “princípio” da criação, conforme a narração do livro do Gênesis. A partir de agora vamos ver seis conceitos fundamentais que explicam a condição humana no “princípio”. São eles: a solidão original, a unidade original, a nudez original, o significado esponsal do corpo, a inocência original, e o ciclo “conhecimento-procriação”. Vamos refletir hoje sobre o primeiro dos seis conceitos fundamentais das catequeses do Papa João Paulo II sobre o amor humano: a solidão original.
Vamos partir da seguinte passagem do Gênesis: “E o Senhor Deus disse: ‘Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma auxiliar que lhe corresponda’” (Gen 2,18). É bom lembrar que na narrativa do Gênesis Deus criou o homem e o chamou de Adão – aquele que foi criado do “pó da terra” – e só depois da criação da mulher é que ele é chamado de homem (varão) no sentido estrito da palavra. No hebraico o homem é chamado de “Ish” e a mulher “Ishá”.
Quando Deus diz que “não é bom que o homem esteja só”, podemos entender essa solidão do homem em dois sentidos: o primeiro deriva da própria condição do homem enquanto criatura, ou seja, da sua própria humanidade; o segundo deriva do fato da relação entre homem-mulher que é evidente nessa narrativa. Para entendermos melhor esses dois sentidos é preciso lermos o versículos seguintes: “Então o Senhor Deus formou da terra todos os animais selvagens e todas as aves do céu, e apresentou-os ao homem para ver como os chamaria; cada ser vivo teria o nome que o homem lhe desse. E o homem deu nome a todos os animais domésticos, a todas as aves do céu e a todos os animais selvagens, mas não encontrou uma auxiliar que lhe correspondesse” (Gen 2,19-20).
Quando o homem nomeia todos os animais ele percebe que é diferente de todas as criaturas que o rodeiam. Pela primeira vez o homem toma consciência que ele é corporalmente diferente de todas as espécies vivas, e mais do que isso, ele é diferente em inteligência e espírito, pois o mesmo é capaz de dar nome às criaturas. De certa forma o homem percebe que é superior a todas as criaturas, ou seja, ele não pode se colocar em pé de igualdade a nenhuma das espécies vivas sobre a terra. Daí, entendemos que o homem encontra-se, desde o primeiro momento de sua existência, diante de Deus e em busca de sua própria “identidade”. Essa identidade só é adquirida quando o homem percebe diante dele alguém que lhe é semelhante a si mesmo: a mulher. Mas também essa identidade não é esgotada somente na criação da mulher, porque a solidão original continua mesmo com a presença do sexo oposto. Por quê? Porque a solidão original do homem (entenda-se homem ou mulher) está baseada no fato que ele é essencialmente constituído em uma relação com o próprio Deus. Em outras palavras, o homem é criado com uma abertura a Deus, ele é capaz de Deus, ele precisa de Deus para preencher a solidão que habita dentro de si.
Com base nisso vamos olhar para a nossa realidade: dois pontos a serem refletidos aqui. Todos nós temos uma dimensão transcendente que nos remete a Deus e que por isso precisa ser preenchida por Deus. Daí a frase de Santo Agostinho “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. Por outro lado, enquanto seres sexuados, podemos afirmar que ambos, homem e mulher, precisam um do outro para afirmarem suas identidades masculina e feminina. O homem precisa da figura da mulher para ser autenticamente masculino, a mulher precisa da figura do homem para ser autenticamente feminina. Daí, por exemplo, podemos entender como é fundamental o exercício correto da presença do pai e da mãe para a formação das personalidades dos filhos. Quando pai e mãe assumem seus papéis dentro do lar com amor e dedicação na educação dos filhos, tentando reduzir ao máximo as lacunas desse processo educativo, o resultado não pode ser outro senão filhos com uma identidade bem definida em relação à sua sexualidade, abertos à realidade do amor e abertos àquele que é o fundamento do amor: Deus. O contrário disso é o que vemos multiplicar-se em nossa sociedade: famílias desestruturadas e destruídas que não mais transmitem essa identidade para os filhos, e filhos que não sabem mais assumir uma identidade do que é ser masculino e feminino de acordo com o projeto original de Deus.
No próximo artigo veremos o significado da “Unidade Original”. Até lá.

Teologia do Corpo - Parte2 - Cristo se Refere ao Princípio


No último artigo publicado me propus a expor de maneira sintética a Teologia do Corpo desenvolvida por João Paulo II quando de suas catequeses sobre o amor humano. As catequeses do Papa estão basicamente divididas em duas grandes partes: a primeira parte aborda “As Palavras de Cristo” e segunda parte sobre “O Sacramento” do matrimônio. A primeira parte, no entanto, está dividida em três partes. A primeira delas é a que aqui expomos neste artigo.
No início de suas catequeses o Papa João Paulo II tenta traçar uma adequada antropologia, ou seja, uma adequada “visão integral do ser humano”. E o ponto de partida são as palavras de Cristo direcionada aos fariseus na passagem de Mateus sobre o divórcio.
“Os fariseus vieram perguntar-lhe para pô-lo à prova: É permitido a um homem rejeitar sua mulher por um motivo qualquer? Respondeu-lhes Jesus: Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu. Disseram-lhe eles: Por que, então, Moisés ordenou dar um documento de divórcio à mulher, ao rejeitá-la? Jesus respondeu-lhes: É por causa da dureza de vosso coração que Moisés havia tolerado o repúdio das mulheres; mas no começo não foi assim” (Mt 19,3-8).
Ao responder a pergunta dos fariseus Jesus recorre às Escrituras, mais precisamente ao livro do Gênesis, e na sua fala faz referência duas vezes ao “princípio”. O princípio aqui refere-se à criação e a condição inicial que homem e mulher possuíam antes do pecado. Vale ressaltar que, quando Jesus chama a atenção dos fariseus para as palavras  escritas em Gênesis, ele quer, de certa maneira, que eles ultrapassem os limites da condição pecadora do homem e tenham uma compreensão de como era o homem no estado “original”, na sua situação de inocência original. Jesus quer então que eles façam uma distinção entre o estado original e o estado atual do homem (estado “histórico”) que já se encontra dentro do conhecimento do “bem e do mal”, conforme a sugestão do maligno simbolizado pela serpente.
O que isso significa para nós? Significa em primeiro lugar que a ordem inicial da criação do homem querida por Deus não perdeu a força por causa do pecado. Significa que, ainda que o homem tenha perdido a inocência original, Jesus aponta para um caminho onde é possível o homem resgatar algo da sua essência original, isso porque o homem está aberto para o mistério da redenção que veio através do próprio Jesus. Em outras palavras, o homem histórico sujeito às limitações do pecado é capaz de encontrar em Jesus Cristo a sua imagem de ser imaculado e puro como era no “princípio”, de acordo com a vontade e desígnio do Criador. Como diz João Paulo II, essa é a perspectiva da redenção do homem, e mais ainda, a “perspectiva da redenção do corpo” que assegura a continuidade e a unidade entre o estado de pecado do homem e a sua inocência original.
Sabemos que fomos criados por amor e para o amor conforme a vontade divina do Criador; mas para conhecermos o caminho para compreensão mais profunda desse amor e tentar exercitá-lo na nossa experiência cotidiana é preciso que conheçamos a natureza original do ser humano, a nossa própria natureza, para que por Cristo, com Cristo e em Cristo possamos resgatar o nosso “eu” do “princípio”.
No próximo artigo veremos um dos conceitos fundamentais para entendermos a condição humana no princípio. Até lá!


Pe. Idamor da Mota Jr.